Escrever para Florescer
Escrever para Florescer
Há em mim um silêncio que não significa ausência de pensamento, mas, talvez, excesso de profundidade. Diante da urgência da palavra falada — em reuniões, palestras ou gravações de vídeos —, as ideias por vezes se recolhem, e o medo passa a ocupar o espaço que deveria pertencer à voz.
Na escrita, porém, o tempo se torna meu aliado. As palavras chegam sem imposição, encontram forma e revelam com maior fidelidade aquilo que penso e sou. Talvez eu não tenha propriamente dificuldade de me expressar, mas apenas necessite de uma linguagem que encontre no silêncio o tempo necessário para florescer.
Compreendi, entretanto, que é possível desenvolver a expressão oral por meio de treinamento e, sobretudo, fazendo da escrita uma ponte para a fala. Não preciso redigir integralmente aquilo que desejo dizer. Basta registrar as ideias centrais, organizá-las em uma sequência simples e consultá-las durante a apresentação. Esses pequenos pontos de apoio podem oferecer segurança sem aprisionar a espontaneidade.
Também preciso aceitar que a palavra falada não deve reproduzir a mesma precisão de um texto cuidadosamente elaborado. A escrita permite voltar, corrigir, substituir e lapidar. A fala nasce no instante: é mais direta, imperfeita e humana. Suas pausas, hesitações e eventuais tropeços não diminuem a profundidade do pensamento; muitas vezes, tornam a comunicação mais verdadeira e aproximam quem fala de quem escuta.
Talvez o caminho não seja combater o meu silêncio, mas aprender a transformá-lo em presença. Falar não exige que eu abandone o escritor que existe em mim. Ao contrário: posso permitir que ele prepare o terreno, organize as ideias e ofereça à voz aquilo de que ela necessita para nascer.
O conteúdo apresentado no link que acompanha este texto tocou-me profundamente e foi a razão sincera que me levou a escrever e publicar estas palavras. Nele, reconheci algo de minha própria experiência, a do sofrimento que certas limitações que tenho provocam, ao tentar fazer uma gravação de vídeo com um neto. Estas não precisam ser escondidas e quando acolhidas e compartilhadas com honestidade, podem converter-se em caminhos de crescimento.
Escrevo, portanto, não para justificar o meu silêncio, mas para começar a atravessá-lo. Se a escrita sempre foi o lugar onde minhas ideias florescem, talvez seja também por meio dela que, pouco a pouco, minha voz aprenderá a florescer.
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