Tabuleiro de Xadrez — entre a memória, a herança e o desencontro
Tabuleiro de Xadrez — entre a memória, a herança e o desencontro
Em Tabuleiro de Xadrez, não represento apenas um jogo: procuro tornar visível uma lembrança que permaneceu dentro de mim, atravessada pelo afeto, pela admiração e por certa melancolia. O tabuleiro remete à presença de meu pai, excelente jogador de xadrez, para quem aquelas casas ordenadas constituíam um território de inteligência, estratégia e antecipação. Ele desejava que eu também dominasse esse universo e, talvez, esperasse encontrar em mim uma continuidade de si mesmo. Essa expectativa, porém, não se realizou da maneira como imaginara.
Hoje compreendo que essa frustração não significava falta de amor, mas o desencontro silencioso entre o projeto de um pai e a vocação particular de um filho. Não herdei plenamente sua habilidade para movimentar reis, torres, cavalos e bispos; herdei, contudo, algo menos evidente e talvez mais profundo: o fascínio pelas relações entre ordem e complexidade, cálculo e intuição, estrutura e imprevisibilidade. Aquilo que não consegui expressar como jogador reaparece, muitos anos depois, transformado em linguagem visual.
As diagonais sombreadas produzem profundidade, movimento e ambiguidade ótica. As casas parecem dobrar-se, projetar-se ou desaparecer umas dentro das outras. O tabuleiro deixa de ser uma superfície estática e transforma-se em passagem: uma estrutura situada entre o presente e o passado, entre aquilo que vivi e aquilo que poderia ter vivido. Mesmo sem a presença das peças, percebo que existe ali uma partida em andamento. Seus movimentos, porém, são invisíveis.
Essa ausência constitui um dos mistérios da obra. Onde estão os jogadores? A partida terminou ou sequer começou? Quem venceu? Quem esperou inutilmente por determinado movimento? As casas vazias podem guardar tanto a falta quanto a possibilidade. O pai já não está diante do filho, mas sua presença permanece inscrita no campo do jogo, como se cada quadrado conservasse a lembrança de uma conversa que não chegou a acontecer plenamente.
Como arte digital, a obra explora com delicadeza a tensão entre precisão tecnológica e fragilidade humana. A sobriedade do preto, do branco e dos tons de cinza afasta qualquer sedução cromática imediata, concentrando o olhar na textura, na luz, na repetição e na profundidade. A moldura escura reforça a sensação de estarmos diante de uma relíquia, de uma janela ou mesmo de um arquivo afetivo preservado contra o esquecimento.
Assim, Tabuleiro de Xadrez representa para mim uma reconciliação tardia. Ao transformar em arte aquilo que um dia foi expectativa frustrada, estabeleço com meu pai uma nova forma de diálogo. Talvez eu não tenha me tornado o jogador que ele desejava, mas converti o seu tabuleiro em imagem, memória e reflexão. A partida que não pudemos compartilhar segundo as regras do xadrez continua agora no território da arte — sem vencedores ou vencidos, apenas com a presença persistente do afeto e com o mistério das jogadas que o tempo deixou suspensas.
Obra: Tabuleiro de Xadrez
Ano: 2023
Técnica: Arte digital desenvolvida a partir de referências visuais, em processo iterativo de criação com recursos puramente digitais e de efeitos especiais. Sem uso de IA . Impressão UV Fine Art sobre madeira texturizada e produzida com padrão de qualidade museológica.
Dimensões: 60 x 60 cm.
