Texto Autoral – Meu ateliê como espelho imperfeito
Texto Autoral – Meu ateliê como espelho imperfeito
Quando observo meu ateliê, percebo que ele funciona como uma espécie de espelho da minha trajetória artística. As obras expostas, os projetos interrompidos, os materiais acumulados e até os espaços vazios revelam aquilo a que tenho dedicado tempo, energia e pensamento. Entretanto, reconheço que esse espelho nunca é inteiramente fiel.
Meu ateliê não guarda apenas prioridades. Guarda também dúvidas, fracassos, experiências inconclusas, impulsos contraditórios e ideias que ainda não encontraram forma. Aquilo que parece desordem pode ser uma pesquisa em estado embrionário; o que parece abandono talvez esteja apenas aguardando outro tempo para florescer. Julgar minha trajetória somente pelo que ocupa esse espaço seria ignorar tudo aquilo que continua sendo elaborado no território invisível da minha sensibilidade.
Também reflito sobre a ideia do “artista que desejo construir”. Não me considero uma obra antecipadamente planejada, nem uma identidade que possa ser organizada como uma marca. Formo-me por minhas escolhas, mas também pelos acidentes, pelas perdas, pelos encontros e pelos caminhos que jamais imaginei percorrer. Muitas vezes, não sou apenas eu quem conduz a obra; é ela que me desloca, desafia minhas certezas e revela quem estou me tornando.
Percebo ainda um risco contemporâneo na busca excessiva por coerência: o de submeter minha criação às exigências da produtividade, do reconhecimento e do posicionamento. Se tudo o que faço precisar confirmar uma identidade artística claramente definida, meu ateliê poderá deixar de ser um território de liberdade para transformar-se numa vitrine cuidadosamente administrada. A coerência, quando imposta cedo demais, pode eliminar contradições capazes de gerar descobertas importantes.
Por isso, não desejo que meu ateliê conte uma história perfeitamente organizada. Prefiro que ele conserve os vestígios de uma consciência em movimento. Sua função não é apenas confirmar o artista que imagino ser, mas também abrigar aquele que ainda desconheço e que começa a surgir entre tentativas, desvios e inquietações.
Assim, diante do meu próprio ateliê, pergunto-me: reconheço nele apenas o artista que planejei ser ou tenho coragem de acolher aquele que a própria obra está tentando revelar?
