Texto Autoral – Preâmbulo — Os sinais de um encontro
Texto Autoral – Preâmbulo — Os sinais de um encontro
Antes de compreender que a arte poderia definir uma parte essencial de minha existência, vivi acontecimentos que, vistos à distância, parecem ter sido sinais de um caminho que já se preparava silenciosamente dentro de mim. Não houve uma decisão súbita nem um projeto cuidadosamente estabelecido. Houve uma sucessão de descobertas, coincidências e encantamentos que acabaram conduzindo o engenheiro ao território imprevisível da criação.
Tudo começou em uma noite de inverno. Talvez o frio e o recolhimento tenham favorecido aquele estado particular de atenção em que o mundo exterior parece diminuir para que alguma coisa interior possa finalmente manifestar-se. Sem formação artística e sem imaginar as consequências daquele gesto, tomei papel e lápis e comecei a desenhar. As formas surgiam como se estivessem apenas esperando uma oportunidade para se tornarem visíveis. Eu não sabia exatamente o que procurava, nem possuía critérios para avaliar o que produzia. Sabia apenas que aqueles desenhos me provocavam uma sensação desconhecida: era como se uma parte de mim, até então silenciosa, houvesse encontrado sua própria linguagem.
Não foi apenas uma noite de produção. Foi uma noite de revelação. Cada linha parecia ampliar uma passagem entre o homem que eu conhecia e outro que começava a nascer. Aqueles desenhos, realizados quase por impulso, despertaram o interesse de pessoas ligadas às artes e acabaram abrindo para mim as portas de um universo que eu observava de fora. De maneira inesperada, fui levado ao convívio com artistas, críticos, galerias e exposições. A criação deixou de ser uma experiência solitária e passou a adquirir presença pública.
Antes disso, entretanto, a fotografia já me havia proporcionado outra experiência decisiva. Recordo-me de uma noite em meu laboratório fotográfico, envolvido pela penumbra, pelo silêncio e pela luz vermelha que protegia o papel sensibilizado. Ao mergulhar a folha aparentemente vazia no líquido revelador, vi a imagem surgir lentamente diante dos meus olhos. Primeiro, algumas sombras; depois, linhas, volumes e tonalidades; por fim, uma realidade inteira emergindo de onde, poucos instantes antes, parecia não existir coisa alguma.
Aquela transformação pareceu-me mágica. Embora eu conhecesse os procedimentos técnicos e químicos que a tornavam possível, a explicação racional não diminuía o encantamento. Ao contrário: mostrava-me que ciência, técnica e mistério podiam habitar o mesmo acontecimento. Talvez tenha nascido ali uma percepção que acompanharia toda a minha trajetória: a de que a tecnologia não se opõe à sensibilidade e de que um instrumento técnico pode transformar-se em meio de descoberta poética.
Os desenhos daquela noite de inverno aprofundaram essa revelação e me fizeram ingressar efetivamente no mundo da arte. Em pouco tempo, passei a participar de exposições importantes, convivendo com nomes já reconhecidos e submetendo meu trabalho ao olhar de críticos, curadores e do público. Para alguém que não havia planejado tornar-se artista, ver minhas obras integradas a esses espaços representava algo difícil de explicar. Era como se a arte, depois de me encontrar em silêncio, começasse a apresentar-me ao mundo.
Entre os acontecimentos mais surpreendentes daquele período esteve o convite do Museum of Modern Art de Nova York — o MoMA. Independentemente dos desdobramentos que se seguiriam, receber uma manifestação de interesse de uma instituição de tamanha importância teve para mim um profundo valor simbólico. Aquele convite parecia confirmar que os desenhos nascidos sem pretensão, em uma noite fria e aparentemente comum, possuíam uma força capaz de atravessar distâncias e alcançar um dos centros mais influentes da arte moderna.
Minha trajetória, porém, não seguiria uma linha contínua. O conflito entre minhas atividades de engenheiro e artista, somado às responsabilidades profissionais e familiares, obrigou-me, em 1970, a interromper minha participação nos circuitos artísticos. Afastei-me das exposições e dos espaços institucionais, mas não da necessidade de criar. O artista permaneceu dentro de mim, procurando uma forma de sobreviver às exigências da vida cotidiana.
Essa forma começou a revelar-se quando percebi que o computador poderia transformar-se em um ateliê instalado no ambiente doméstico. Nele, encontrei a possibilidade de reunir dois campos que durante muito tempo pareceram disputar minha existência: a disciplina estrutural da engenharia e a liberdade imaginativa da arte. A lógica, o cálculo e a programação deixaram de ser apenas instrumentos técnicos e passaram a participar da construção de cores, formas, texturas e ritmos visuais.
Muitos anos depois, essa produção digital seria objeto de uma análise sensível e rigorosa da falecida embaixadora e crítica de arte Vera Pedrosa. Seu texto representou para mim mais do que um reconhecimento: ofereceu um olhar capaz de perceber, por trás da tecnologia, a permanência de uma inquietação artística iniciada muito antes. Ao analisar minha obra digital, Vera Pedrosa ajudou a revelar a continuidade existente entre o desenho, a fotografia, a gravura, o pensamento do engenheiro e as imagens produzidas pelo computador.
Seu olhar confirmou algo em que sempre acreditei: a ferramenta pode mudar, mas não é ela que determina a existência da arte. O que verdadeiramente importa é a capacidade de transformar técnica em linguagem, cálculo em sensibilidade e matéria — física ou digital — em experiência humana.
É a partir desses acontecimentos que deve ser lido Quando a Arte me Encontrou. Não como a história de uma escolha profissional planejada, mas como o relato de uma descoberta interior. A noite de inverno, a imagem aparecendo no laboratório fotográfico, as exposições, o convite do MoMA, o afastamento dos circuitos artísticos, a reinvenção da criação no espaço doméstico e as palavras de Vera Pedrosa pertencem a uma mesma travessia.
Em cada um desses momentos, a arte apresentou-se a mim de uma maneira diferente. Algumas vezes como surpresa, outras como reconhecimento; em certos períodos como presença pública e, em outros, como resistência silenciosa. Hoje compreendo que não fui eu quem encontrou a arte. Foi ela que, desde aquelas primeiras noites, encontrou diferentes maneiras de não me abandonar.
