Texto Autoral – Quando a arte me encontrou
Há acontecimentos que escolhemos e há outros que simplesmente irrompem em nossa vida, alterando silenciosamente aquilo que imaginávamos já definido. Minha aproximação com a arte pertence a essa segunda categoria. Não fui ao seu encontro movido por um projeto ou pela intenção de me tornar artista. Quando percebi, ela já havia entrado em minha vida.
Aos 34 anos, eu era engenheiro, casado, pai de três filhos e tinha uma profissão estável. Minha existência estava organizada segundo uma lógica bastante concreta: trabalho, responsabilidades, família, compromissos. A engenharia havia me ensinado o rigor, o método, a disciplina e a procura de soluções. Eu não poderia imaginar que, paralelamente a esse homem já constituído, começaria a surgir outro.
A fotografia foi a primeira abertura. Na garagem de casa, montei um pequeno laboratório para revelar fotografias em preto e branco. Havia alguma coisa quase mágica naquele processo. No silêncio e na penumbra do laboratório, eu acompanhava uma imagem que, pouco a pouco, emergia do papel mergulhado no revelador. Aquilo me fascinava. Mas hoje percebo que o mais importante não era propriamente a fotografia que aparecia. Era o que acontecia comigo enquanto ela aparecia.
Eu sentia prazer. Um prazer intenso, difícil de explicar e, principalmente, uma vontade imediata de repeti-lo. Talvez tenha sido essa a minha primeira percepção de que criar poderia ser uma forma diferente de existir. Da fotografia passei ao desenho quase naturalmente. Comecei sem grandes pretensões, fazendo rabiscos num pedaço de papel. Mas alguma coisa aconteceu entre minha mão, o lápis e aquilo que começava a surgir. O desenho parecia responder aos meus gestos. Um traço provocava outro. Uma forma sugeria a seguinte. Eu interferia na imagem e, de algum modo, a imagem também interferia em mim.
Foi então que ocorreu uma experiência que jamais esqueci. Numa noite fria de inverno de 1967 comecei a desenhar e atravessei a madrugada. Quando percebi, eram sete horas da manhã. Como era fim de semana, continuei no domingo e produzi mais dois trabalhos. Por que eu não conseguia parar?
Hoje, tantos anos depois, consigo compreender melhor. Não se tratava apenas de entusiasmo por uma atividade recém-descoberta. Havia ali uma espécie de necessidade interior. Eu havia encontrado uma experiência capaz de produzir em mim uma intensidade que desconhecia. Resolvi então submeter aqueles três desenhos ao Salão Nacional de Arte Moderna de 1967. Os três foram aceitos.
Esse momento teve para mim uma importância muito maior do que uma simples aprovação. Até então, aquela experiência pertencia apenas ao meu mundo interior. Eu desenhava, me surpreendia e me emocionava, mas ainda poderia considerar tudo aquilo uma aventura pessoal. A seleção dos três trabalhos introduziu um elemento novo: o olhar do outro. A descoberta íntima recebia uma primeira confirmação externa.
Depois vieram outras respostas. Meus trabalhos começaram a despertar atenção, críticos de arte passaram a comentá-los e surgiram convites para exposições. Não considero que o reconhecimento do mercado ou da crítica determine, por si só, o valor de uma obra. Mas seria falso dizer que aquilo não teve importância para mim. Teve — e muita. Porque reforçou uma pergunta que já não podia evitar:
O que estava acontecendo comigo? Quanto mais a arte me proporcionava prazer e reconhecimento, mais espaço ela exigia — e esse espaço precisava ser retirado de uma vida já ocupada pela engenharia, pela família e pelas responsabilidades que eu havia assumido. Durante algum tempo, tentei conciliar duas maneiras aparentemente distintas de estar no mundo: a do engenheiro, formado para organizar, calcular, prever e resolver; e a do artista, movido pelo desejo de experimentar, imaginar, arriscar e acolher até aquilo que não podia ser inteiramente explicado.
Essa dupla atividade, porém, tornou-se progressivamente difícil de sustentar. As exigências da vida profissional e familiar entravam em conflito com o tempo, a disponibilidade e a entrega que a participação nos circuitos de arte demandava. Em 1970, vi-me forçado a interromper minha presença nesse meio. Não abandonei a arte, mas precisei afastar-me de seus espaços institucionais, de suas exposições e de sua convivência pública.
A interrupção não significou, contudo, o desaparecimento do artista. A criação permaneceu em mim como uma inquietação silenciosa, à procura de outras formas de existir. Comecei então a imaginar a possibilidade de produzir arte, conciliando-a com minhas demais responsabilidades. Mais tarde, quando o computador se tornou acessível a esse espaço, encontrei nele um novo ateliê: um território no qual a precisão do engenheiro poderia finalmente dialogar com a liberdade do artista.
Com o passar dos anos, compreendi que minha trajetória seria marcada justamente por essa tensão e, ao mesmo tempo, pela tentativa de aproximar esses dois universos. A tecnologia digital permitiu-me transformar cálculo, estrutura e programação em cor, forma, ritmo e imaginação. Muitas décadas depois daquela primeira experiência diante de uma folha de papel, a inteligência artificial abriria outra fronteira para a mesma inquietação criadora.
As ferramentas mudaram. Primeiro vieram a câmera e o laboratório fotogr´fico; depois, o lápis e a xilogravura. Em seguida, o computador, a imagem digital e, finalmente, a inteligência artificial. A pergunta, entretanto, permaneceu essencialmente a mesma: o que ainda posso descobrir quando começo a criar uma imagem sem saber exatamente aonde ela me levará?
Aos 34 anos, não decidi tornar-me artista. Descobri que já existia um artista em mim. Em 1970, as circunstâncias me afastaram dos circuitos da arte, mas não conseguiram afastar a arte de minha vida. Depois de encontrá-la dentro de mim, nunca mais consegui voltar a ser apenas o homem que eu era antes.
